Soneto à Garota da Laje

A rotina é severa: todo dia,
nas mãos a canga e o óleo, sobe a escada
e estende-se – na laje, a tez dourada
esplende (ao longe, um par de olhos espia).

Em meio à vespertina calmaria,
de tudo esquece, sob o sol deitada.
Na mente pelo sono já tomada,
aos poucos, eis que emerge a fantasia:

desfila pelo palco, soberana,
por todos contemplada – aplausos, gritos
ressoam, sem cessar um só segundo:

já o esperava: vence – estava escrito!
Ei-la, famosa: a musa suburbana,
da Praça do Mascate para o mundo!


Henrique Marques-Samyn

(Arte sobre foto de autor desconhecido)