Shaila

Shaila, perdida na noite,
manca: seu salto quebrado
pelo chão vai se arrastando.
Dói-lhe o pé, sujo e descalço.

Shaila, fodida por tantos,
manca: vai só, sem nenhum.
Leva na pele o perfume:
um cheiro fraco e barato

entre outros cheiros diversos:
cheiro da pele ensebada
dos que a foderam, e o cheiro
acre da ardente cachaça

que um lhe deixou na mordida
forte, amarela, rançosa.
Shaila vai: manca, perdida,
vaga no Aterro. A alvorada

nasce. E ela parte. Se é dia
ninguém a vê, nem quer mais
(nem ela mesma, a invisível –
homem? mulher? – tanto faz).


Henrique Marques-Samyn