Marcela morta

Abriu-se uma janela, às cinco e meia,
na aurora acinzentada do Flamengo.

Abriu-se uma janela – e escancarada
ficou: sem nem um gesto, imperturbável,
ferindo aquela aurora acinzentada,
despida sobre a gélida calçada,
imóvel. Quem a viu quando era viva
não reconheceria a boca inerte
e a pele fosca, lívida e gelada.

Abriu-se uma janela, às cinco e meia:
abriu-se: fez-se porta para o nada.
Abriu-se uma janela, e na calçada,
Marcela estilhaçada não vivia.
Cruzara os céus, partindo da janela,
e agora, nesta aurora acinzentada,
jazia na calçada. Fria. Morta:
a carne – e quem vivia dentro dela.


Henrique Marques-Samyn