Praça Saens Peña

Se veio em busca dos cinemas,
saiba que não mais existem:
o Olinda, o Metro Tijuca,
o Eskie, o Art-Palácio –
foram-se: não mais seus olhos
verão as telas que outrora
enlevaram-nos em sonhos.

Resta, agora, esta praça.
Perdeu-se, decerto, a graça
que tinha naqueles tempos.
Ainda existe, entretanto,
quem no lago veja o encanto
que resta desse passado –
tijucano desalento.


Henrique Marques-Samyn


(ilustração: arte sobre foto do Arquivo O Globo, sem autor identificado, via Flickr)

Três amigas

Quando amanhece, volta pra pensão
na rua do Escorrega (dona Rita
aluga o quarto que ela e três amigas
dividem). Sandra, Tábata e Maria
trabalham – toda a noite – ali por perto,
numa boate da Praça Mauá
: embora ganhem pouco, sobrevivem --
e levam, nos pequenos corpos tristes,
o sal que, em sua bêbada alegria,
os marinheiros trazem do alto mar.


Henrique Marques-Samyn

Os piores homens

                     (1993 – 2001 – 2007)

Não sou o melhor dos homens,
mas há homens piores do que eu.

Encontrei-os em Santa Teresa:
quando vi os lençóis manchados com o sangue da mãe e da filha,
percebi que aqueles homens
                 eram piores do que eu.

(Já os tinha visto antes –
certa noite, na Candelária,
quando fizeram sua festa macabra;

depois, voltei a encontrá-los:
no asfalto de Oswaldo Cruz,
as marcas traziam sua assinatura.)

Não sou o melhor dos homens,
mas há homens piores do que eu.

Eu sou apenas um.
Eles, no entanto,
                 são muitos.


Henrique Marques-Samyn

O errante de Irajá

Nas ruas de Irajá,
            solitário,
            escuro o semblante,
vagava entre as sombras noturnas.

Ainda que o vissem,
            ignoravam-no:
de longe o fitavam, temerosos
– sestro vulto, entregue à errância
como um louco ou condenado.

De onde viera,
            não se soube;
jamais se soube o seu nome.

(o que um dia o perseguiu
caro pagou a ousadia:

            diante do cemitério,
            o corpo – sem olhos – jazia)


Henrique Marques-Samyn

Joana

Ao fim, pouco se disse –
apenas o necessário:
                aos quinze anos de idade,
                matou-se (não disseram
                que, naquela tarde,
                ouvia Cartola – e lia
                um livro de Bandeira).

..........................................

A casa no Grajaú,
encoberta pelas árvores,
só o silêncio abriga.

Morreu já faz três dias.

Chamava-se Joana:
a todos enganava
o sorriso que exibia.


Henrique Marques-Samyn

Aos assassinos

Vós, que andais pelas sombras,
sorrateiros, à minha espreita,
à espera do exato momento
em que, numa destas esquinas,
serei vossa fácil presa –

vós, que vagais silentes
                      pelas ruas de Barros Filho,
                      pela praia de Ipanema,
                      pela Avenida Brasil –
misturados a tantos outros,
caminhando a passos leves,
sem despertar suspeitas:

tendes a lâmina escura
oculta entre os trajes limpos;
tendes os olhos sedentos
do meu sangue – eu vos aguardo,
sempiternos assassinos!


Henrique Marques-Samyn

A Aracy Cortes

Fazia-se muitas quando cantava
a graciosa estrela brasileira −
senhora rainha, altiva mulata,
santa pagã, tão profana e faceira:
do Catumbi à Praça Tiradentes
ergueu o império em que foi soberana −
ei-la: terrível mestiça, esplendente,
Aracy Cortes: a estrela primeira.

Henrique Marques-Samyn

Três engenhos

Engenho de Dentro

No Engenho de Dentro nascem sonhos
que são de duas diversas famílias:
os que Nise encontrou dentro do abismo;
os que o Arranco leva pra Avenida.

Uma espécie de sonho diferente
é o que nasce no verde do gramado:
alvinegro esse sonho – que revive
no presente as conquistas do passado.


Engenho Novo

Aos jesuítas pertenceu outrora
o bairro chamado Engenho Novo:
terra de canaviais e lavouras
colada à Serra dos Pretos Forros.

Quando havia o Cine Santa Alice
o bairro era muito diferente:
mais felizes naquele tempo os jovens
do que estes que vivem no presente.


Engenho da Rainha

O Engenho da Rainha já fez parte
da antiga Freguesia de Inhaúma:
é este um bairro a outros irmanado
pela Estrada Velha da Pavuna.

Se outrora foi residência real,
agora é lar de mais modesta gente.
A Cidade do Som decerto atesta:
é bairro musical por excelência.


Henrique Marques-Samyn

Vi-a no metrô

Vi-a no metrô:
sentada, os olhos fechados,
sobre o colo o mp3.

Não me viu – mas eu a via.
(Castanhos os seus cabelos,
tatuada a pele clara)

Permanecia assim:
qual fosse uma escultura,
inerte – entregue à música
velada em seu segredo.

No Largo do Machado
desci, sem perturbá-la.
Impassível!
               Quantos mais
de longe a contemplaram?


Henrique Marques-Samyn

Na Taquara

Na barraca, na Taquara,
a placa: “Sopas e caldos”.

Sentado à mesa de plástico,
magro e envelhecido,
sorve a sopa de ervilha –

fitam os olhos humilhados
o casal de namorados
que ri, na mesa ao lado.

Solitário e magro, leva
à boca a espessa sopa,
insossa e acinzentada:

cansado, o corpo curvado
suporta o enorme peso
dos erros do passado.


Henrique Marques-Samyn